Cronica do campo missionario
Sentença e perdão - Um julgamento memorável
Ainaro, no Timor Leste, tem sido um campo missionário difícil. Todos
os missionários que por lá passaram foram perseguidos e ameaçados, até não ser mais
possível a presença de nenhum pastor estrangeiro na região. Um templo foi construído,
e depois fechado, por causa da intensa oposição. Por quase quatro anos este templo
foi mantido trancado, com as chaves dos cadeados nas mãos dos inimigos. Durante
esse período, todos os equipamentos, cadeiras, cortinas, absolutamente tudo, foi
roubado. Ao redor cresceu um imenso matagal, deixando um ar de completo abandono
e derrota.
Mas a obra de Deus não parou. Embora em um número reduzido e de maneira
um tanto temerosa, os irmãos se reuniaum nas casas para cultuar ao Senhor. Deus
levantou então um líder nativo, o irmão Jacob, que em outro tempo havia sido também
um dos perseguidores dos missionários em Ainaro. Mais tarde o irmão Jacob
tornou-se aluno do nosso seminário bíblico em Dili, recebendo a sua consagração
ao pastorado em Janeiro passado.
O templo continuava fechado, apesar das várias determinações judiciais
para que fosse reaberto e as atividades recomeçadas. Por fim, uma procuradora de
justiça ousada, já cheia pelos constantes desafios ao poder judiciário por parte
das autoridades de Ainaro, resolveu lutar com todo vigor para ver cumprida a resolução
judicial. Por fim, um último despacho, em caráter definitivo e urgente, determinava
a reabertura do templo e reunício de todas as atividades. Os chefes locais tentaram
diversas manobras, com o objetivo de adiar a reabertura, o que resultou na detenção do administrador do subdistrito, o prefeito.
Finalmente, numa atitude ousada e corajosa do irmão Jacob, o templo
foi reaberto, reformado, e os cultos recomeçados.
Poucos dias depois, um dos principais líderes da perseguição, insatisfeito
com a derrota, resolve invadir o terreno do templo. Com um facão na mão, o indivíduo
esbravejava ameaças as mais terríveis contra o irmão Jacob e sua família, que agora
morava nas dependências do templo. A família inteira do irmão Jacob assiste ao ato
de terror, incluindo as suas crianças. Após outros episódios semelhantes, finalmente
a polícia detém o elemento e o entrega a justiça. Decorre então o processo judicial,
com um fato positivo para os cristãos: todo o movimento de perseguição e intolerância
religiosa em Ainaro, os motins, o roubo aos pertences do templo, tem finalmente
um rosto, um oficialmente culpado. Pois até então, a polícia local, pressionada,
não havia detido nenhum suspeito oficial.
Na viatura da polícia, sendo conduzido ao tribunal, em outro Distrito,
Suai, há duas horas de distância, o agora réu continuava, incessantemente, durante
todo o percurso, a esbravejar suas ameaças, mesmo diante dos policiais que o conduziam,
crente na impunidade, no poder da intimidação, e no poder da influência dos que
o davam suporte na retaguarda.
Finalmente, na sexta 01 de março de 2013, o tribunal chega ao veredito
final. Diante do anúncio solene da sentença, 5 anos em regime fechado, o condenado,
como que caindo em si, despertando de um sonho, se derrama em prantos. O juiz, sabiamente,
espera, deixa a cena rolar, deixa o homem acordar bem, ficar bem ciente da sua condição
de condenado, de que não se pode desafiar a justiça... O magistrado apresenta, então,
a desafiadora prosposta, esta dirigida ao agora pastor Jacob. Sem prévia combinação,
o distinto juiz, divinamente tocado, creio eu, pergunta ao pastor Jacob se está
disposto a perdoar o seu agressor, já agora justamente condenado e sentenciado,
perdão este que redimiria o homem de sua condenação e lhe devolveria a liberdade.
O juiz deixava claro através de sua maneira de se expressar, que o destino daquele
inimigo da causa do Evangelho estava agora nas mãos do servo de Deus, que não
estaria cometendo nenhuma ilegalidade se decidisse por manter a condenação do
homem. Só o perdão do pastor podia livrar aquele condenado de passar os próximo
cinco anos de sua vida atrás das grades. Deus faz essas coisas tremendas! Mas o
pastor Jacob fez o que era de se esperar de um homem de Deus. De pronto,
ofereceu o perdão ao seu agressor: “Estou pronto a perdoá-lo, se ele me pedir
perdão de todo o seu coração”. O homem não tinha escolha. Ou mantinha o seu
orgulho e iria para trás das grades, ou se humilharia ali diante de todos,
rogava o perdão ao homem que tanto odiava e teria então a sua liberdade devolvida.
Aos prantos como estava, já não havia mais espaço para a mínima arrogância
naquele indivíduo, cujo ego já havia sido esmagado pela justiça. Aproximando-se
do servo de Deus, o antes ferrenho opositor da obra de Deus em Ainaro roga o
perdão ao pastor. Os dois se abraçam e uma cena memorável acontece ali naquela
sala de julgamentos: todos, a começar pelo juiz, não conseguem conter a emoção.
Juiz, promotores, advogados, soldados, funcionários da corte… todos os olhos se
enchem de lágrimas diante do maravilhoso agir de Deus naquele lugar. Este ex-perseguidor
é agora o que mais bendiz a igreja na comunidade onde mora. E assim, de maneira
triunfante, se finda a perseguição ao povo de Deus em Ainaro. Deus faz essas
coisas tremendas!
Nas fotos abaixo, o templo fechado em estado de abandono, e depois reaberto e reformado.

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